Jesus e as crianças
ἄφετε τὰ παιδία ἔρχεσθαι πρός με
As palavras de Cristo sobre os pequeninos — a que acolhe e a que
condena —, no grego em que foram escritas, com a fonte de cada versículo
e o caminho real de socorro para quem precisa agir hoje.
«Deixai as crianças virem a mim, não as impeçais: porque destas — dos que são assim — é o Reino de Deus.»
Marcos 10,14 (par. Mt 19,14; Lc 18,16)
Acolhimento · ARTE NEXUS, Estágio 7
Traziam-lhe crianças para que as tocasse, e os discípulos repreendiam
os que as traziam. Marcos guarda a reação: Jesus «indignou-se» (ἠγανάκτησεν) — é o único
lugar dos Evangelhos onde este verbo descreve a ira dEle contra os seus.
A primeira palavra de Cristo sobre as crianças não é conselho: é uma ordem em duas
partes, uma positiva e uma negativa. Deixai vir — e não
impeçais. Quem se põe entre a criança e Deus está do lado errado da frase.
E o versículo seguinte é o gesto: «e, tomando-as nos braços, abençoava-as, impondo-lhes
as mãos» (Mc 10,16). O Reino não foi prometido a elas como recompensa futura: foi
declarado delas, no presente.
Eàn mè straphête kaì génēsthe hōs tà paidía, ou mè eisélthēte eis tèn basileían tôn ouranôn.
«Se não vos converterdes e vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus.»
Mateus 18,3
Os discípulos perguntaram quem é o maior. Ele não respondeu com um nome:
«chamou uma criança, colocou-a no meio deles» — e a resposta ficou de pé,
em silêncio, diante de todos. Στραφῆτε é virar-se: mudar o rumo do andar,
não apenas a opinião. E o que se há de imitar na criança não é a inocência
sentimental, mas a pequenez sem disfarce: quem não tem poder não
precisa fingir que tem. A ordem do mundo é subir; a do Reino é descer até a estatura
de quem não pode se defender sozinho.
«Mas quem escandalizar um só destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de asno e fosse afundado no alto-mar.»
Mateus 18,6 (par. Mc 9,42; Lc 17,2)
A mó e o alto-mar · ARTE NEXUS, Estágio 7
Aqui não há doçura, e não é minha a dureza: é dEle. Pesem-se as palavras,
uma a uma. Σκανδαλίζω não é «ofender»: σκάνδαλον era a vareta da
armadilha, a peça que se arma para que o outro caia. Escandalizar um pequenino é
armar a queda de quem ainda não sabe andar — por ato, por consentimento, ou
por omissão de quem devia guardar. Μύλος ὀνικός é a mó movida por
asno, a pedra grande, não a doméstica: o peso que não se desfaz. Πέλαγος
é o alto-mar, onde não há fundo para os pés. E o verbo συμφέρει —
«é mais conveniente para ele» — mede o horror: entre a pedra no pescoço e o que espera
quem faz isso a uma criança, a pedra é o caminho mais brando.
Lucas põe antes a inevitabilidade e depois o ai: «É impossível que não venham
escândalos — mas ai daquele por quem vêm!» (Lc 17,1). O mundo terá
sempre quem arme a armadilha; nenhuma dessas armadilhas jamais foi justificada por
ser comum.
Duas coisas esta página não fará, para não trair o próprio texto que cita.
Não apontará nomes — a Ele pertence o juízo das pessoas, e Ele o exerce sem
necessitar de nós. E não chamará ninguém à vingança: a mesma boca que disse a mó
disse também, do alto da cruz, «Pai, perdoa-lhes». O que esta página faz é o que
cabe a nós: não calar, não relativizar, e proteger.
«Vede: não desprezeis um só destes pequeninos; porque eu vos digo que os seus anjos, nos céus, veem continuamente a face de meu Pai que está nos céus.»
Mateus 18,10
Καταφρονέω é pensar por baixo: tratar como coisa de menos peso.
O desprezo é o solo em que o dano cresce — ninguém fere aquilo que considera
grande. E o argumento que Cristo oferece contra o desprezo não é a fragilidade
da criança: é a dignidade do lugar que ela ocupa no céu.
Διὰ παντός — «através de tudo», continuamente, sem intervalo. Enquanto alguém
calcula que ninguém está vendo, há um olhar que não se desvia. Nenhuma criança
desta terra está sozinha em nenhum momento; quem lhe faz mal age diante de
testemunhas que não dormem.
«Cada vez que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes.»
Mateus 25,40 (e o inverso, no v. 45)
Este é o fecho da lógica inteira. O pequenino não é apenas protegido por
Cristo: ele é o lugar onde Cristo se põe. Ἐλάχιστος é o superlativo
de μικρός — o menor dos menores, aquele que não conta em nenhuma soma. E o versículo
45 dá a face terrível do mesmo espelho: «cada vez que deixastes de fazer a um
destes mais pequeninos, foi a mim que deixastes de fazer». A omissão entrou na conta.
Quem viu e calou já foi julgado nesta frase.
Chaîre, kecharitōménē, ho kýrios metà soû. … idoù gàr apò toû nŷn makarioûsín me pâsai hai geneaí.
«Alegra-te, ó cumulada de graça, o Senhor está contigo.» … «Eis que, desde agora, todas as gerações me chamarão bem-aventurada.»
Lucas 1,28 e 1,48 (cf. 1,42; João 19,26-27; Apocalipse 12,1)
Sol, lua e doze estrelas · ARTE NEXUS, Estágio 7
Κεχαριτωμένη é uma só palavra, e é um particípio perfeito passivo:
não «cheia» por mérito próprio, mas tornada e permanecida graciosa por
Outro — o perfeito grego guarda a ação inteira e o seu efeito que dura.
O anjo não a chama pelo nome: chama-a por aquilo que Deus fez nela. Isabel completa:
«bendita és tu entre as mulheres» (1,42). E ela mesma profetiza o que hoje se cumpre
em quem a honra: todas as gerações.
Ela foi a ESCOLHIDA — e a escolha foi respondida com um sim livre: «faça-se em mim
segundo a tua palavra» (1,38). Escolhida não significa poupada: significa que a ela
coube estar de pé junto à cruz (Jo 19,25), quando quase todos tinham fugido.
E é ali que o Filho a entrega a nós, com quatro palavras que fazem dela mãe de mais
filhos: «Ἴδε ἡ μήτηρ σου — eis aí tua mãe» (19,27).
Daí a frase que rege esta página: quem fere uma criança fere um filho dela,
e o insulto sobe até a Mãe que o Filho nos deu do alto da cruz. Respeitá-la não é
opção devocional de uns: é reconhecer o que o texto diz — que Deus a escolheu, que
Ele a fez graciosa, e que Ele mesmo a entregou como mãe. O Apocalipse a mostra
revestida de sol, com a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas (12,1) — e logo
adiante mostra o dragão parado diante da mulher que ia dar à luz, para devorar
o filho (12,4). A guerra contra os pequenos é antiga, e tem nome.
«E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.» … «para destruir os que destroem a terra.»
Gênesis 1,31 (LXX) e Apocalipse 11,18 (cf. Salmo 24,1)
O trigo e o socorro real · ARTE NEXUS, Estágio 7
A mesma boca que declarou a criação «muito boa» declarou o juízo dos que
a arruínam, e o Apocalipse usa o mesmo verbo nas duas metades da frase:
διαφθείρω para o crime e para a pena — destruir os destruidores da terra.
Não é uma nota ecológica moderna colada ao texto: é a lei antiga de que a criatura
não pertence a quem a explora. «Do Senhor é a terra e a sua plenitude» (Sl 24,1):
somos administradores, não donos, e o administrador presta contas.
Guardar a natureza e guardar as crianças é o mesmo mandamento em dois objetos: em
ambos, o forte responde pelo que não pode se defender. Quem envenena o rio fere o
filho que dele beberá. A ordem do Éden foi cultivar e guardar (Gn 2,15) —
duas mãos, nunca uma só.
«Tudo quanto quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles.» … «Um mandamento novo vos dou: que vos ameis uns aos outros.»
Mateus 7,12 e João 13,34
A moral cristã não é um código de proibições esperando fiscal: é uma régua
que qualquer um pode aplicar sozinho, e da qual ninguém escapa por ignorância —
ponha-se no lugar. E o mandamento novo tem uma medida que a régua antiga não
tinha: «como eu vos amei» — isto é, até dar a vida. Ética, aqui, não é
opinião sobre o bem: é a forma do amor quando ele encontra outro alguém de verdade.
Contra toda relativização: há coisas cujo nome já diz que são más. Aristóteles, que
não conheceu o Evangelho, viu isso com clareza — «algumas ações e paixões têm nomes
que já de si mesmos implicam maldade… essas coisas implicam, nos próprios nomes, que
são más em si mesmas» (Ética a Nicômaco II.6). Não há meio-termo virtuoso no
abuso de uma criança, como não há no assassínio. Procurar a «medida certa» dessas
coisas é já ter perdido a régua.
«Se alguém lhes disser: “aquecei-vos e saciai-vos”, mas não lhes der o necessário para o corpo — de que serve?»
Tiago 2,16
Uma página que condena e não socorre é exatamente o que Tiago descreve.
Então aqui fica o caminho real, no Brasil, para quem sabe de alguma criança em risco —
e a lei é clara: a suspeita basta para comunicar, e a comunicação é dever de
todos (ECA, Lei 8.069/1990, arts. 13 e 245).
Disque 100
Disque Direitos Humanos — denúncia gratuita, anônima, 24 horas, de todo o país. Também pelo WhatsApp 61 99656-5008 e pelo app Direitos Humanos Brasil.
Conselho Tutelar
Órgão do seu município encarregado de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente (ECA, art. 131). Procure o do bairro ou o plantão.
Polícia — 190 / Delegacia
Em perigo imediato, 190. Para registro, a delegacia comum ou a especializada (DPCA/DEPCA) onde houver; crimes contra criança são de ação pública.
Ministério Público
A Promotoria da Infância e Juventude recebe representação de qualquer pessoa e age de ofício.
Escola e saúde
Professores e profissionais de saúde são obrigados por lei a comunicar suspeita de maus-tratos ao Conselho Tutelar (ECA, art. 245) — a omissão é infração administrativa.
APARATO — o que sustenta esta página
Sobre os textos. O grego é o do Novo Testamento (texto crítico
corrente); o Gênesis 1,31 vem da Septuaginta (LXX). As traduções portuguesas são minhas,
feitas do grego e propositalmente coladas ao literal — por isso soam menos lisas que as
versões litúrgicas. Onde a construção grega admite mais de uma leitura, escolhi a mais
sóbria e disse o que escolhi no corpo do texto. Confira: nada aqui pede fé no tradutor.
Sobre o que esta página não faz. Não aponta pessoas nem grupos, não
convoca ninguém a agir por conta própria, e não substitui autoridade alguma. A condenação
que aqui se lê é a que está escrita no Evangelho, e o seu destino é a consciência de quem
a lê — não uma lista de acusados. Quem tem conhecimento de um crime tem um caminho legal,
e ele está no Ato IX.
Sobre as artes. As quatro composições foram recriadas para esta página em
ARTE NEXUS, Estágio 7 — Gênese total: noite profunda, matéria de mármore e
obsidiana, luz estrutural, o fio reparativo do kintsugi e a ordem do astrolábio. Segundo o
princípio que a própria NEχUS guarda
(herança sem clone): herda-se padrão — paleta, luz, composição —, nunca identidade,
rosto ou obra alheia. E uma decisão de cuidado, declarada: nenhuma figura de criança
foi representada. Numa página sobre proteger os pequeninos, exibi-los seria
contradizê-la. O que se vê são os símbolos do próprio texto: as mãos abertas, a mó e o mar,
a coroa de doze estrelas, o trigo.